Por que tantas gestantes se sentem sozinhas mesmo cercadas de pessoas?
O relato recente da influenciadora Rafa Kalimann sobre a sensação de solidão durante a gravidez reacendeu um debate importante sobre saúde mental na gestação: por que algumas mulheres podem se sentir emocionalmente sozinhas mesmo quando estão cercadas por familiares, amigos ou pelo parceiro? Para especialistas, a experiência é mais comum do que parece e pode estar relacionada não apenas à presença ou ausência de pessoas, mas à qualidade das relações e à possibilidade de compartilhar, sem julgamentos, as diferentes emoções que surgem durante a gravidez.
A psicóloga e docente do Centro Universitário UniRuy Talita Romero explica que solidão e isolamento emocional não são necessariamente a mesma coisa. “A solidão na gestação nem sempre está relacionada à ausência física de pessoas. Muitas vezes, é uma solidão emocional, uma sensação: a mulher está acompanhada, mas sente que ninguém consegue acessar exatamente aquilo que ela está vivendo”, explica.
A gestação envolve transformações que vão muito além das mudanças físicas. O período pode provocar alterações na identidade, na rotina, nos relacionamentos, na autoestima e nas expectativas para o futuro. Ao mesmo tempo, existe uma expectativa social de que a gravidez seja vivida como um momento necessariamente feliz.
“Isso pode fazer com que sentimentos como medo, ambivalência, insegurança, irritação ou tristeza sejam pouco verbalizados”, afirma Talita. Segundo ela, a mulher pode, por exemplo, desejar profundamente o bebê e, simultaneamente, sentir medo, cansaço, irritação ou saudade da vida que tinha antes. “Uma coisa não invalida a outra e nem torna ela a ‘pior mãe do mundo’”, ressalta.
Quando a rede de apoio não é suficiente
Ter pessoas por perto é importante, mas não significa necessariamente contar com uma rede de apoio efetiva. Para a psicóloga, mais importante do que o tamanho dessa rede é a qualidade do suporte oferecido à gestante.
“Rede de apoio não é só família. E não significa apenas estar disponível para ajudar depois que o bebê nascer. Ela começa durante a gestação”, destaca.
Esse apoio pode aparecer de diferentes formas: acompanhar consultas, dividir tarefas, proporcionar momentos de descanso, respeitar os limites da gestante e, principalmente, oferecer espaço para que ela fale também sobre medos e dificuldades, e não apenas sobre as expectativas positivas em relação à chegada do bebê.
“Às vezes, a gestante só precisa ouvir: ‘Eu imagino que esteja sendo muita coisa. Quer me contar como você está se sentindo?’”, exemplifica Talita.
Entre os fatores que podem favorecer a sensação de solidão estão o medo do parto, preocupações com a saúde do bebê, insegurança em relação à maternidade, alterações na autoestima e na imagem corporal, receio de não conseguir dar conta das novas responsabilidades, dificuldades financeiras ou profissionais, conflitos familiares e falta de apoio do parceiro.
A romantização da maternidade nas redes sociais também pode contribuir para esse cenário. Ao entrar em contato principalmente com imagens de uma gravidez idealizada, a mulher pode ter dificuldade para reconhecer ou verbalizar sentimentos que não correspondem a essa expectativa.
Solidão pode afetar a saúde mental
Quando intensa ou persistente, a sensação de solidão merece atenção. Segundo o psiquiatra e docente do Idomed - Instituto de Educação Médica, José Péricles Vasconcelos Filho, o baixo suporte social durante a gestação está associado a um aumento importante da ocorrência de sintomas de ansiedade e depressão.
De acordo com o especialista, mulheres com baixo suporte social podem apresentar de três a quatro vezes mais chances de desenvolver sintomas depressivos e até 7,4 vezes mais chances de apresentar sintomas ansiosos.
Por isso, é importante observar quando a solidão deixa de ser uma sensação pontual e passa a fazer parte de forma recorrente da experiência da gestante. Tristeza excessiva, sensação de vazio ou inutilidade, ansiedade intensa, perda de interesse por atividades, alterações importantes no sono ou na alimentação e sensação de incapacidade são sinais que indicam a necessidade de atenção profissional.
A psicóloga Talita Romero ressalta que alterações hormonais e as próprias mudanças da gestação podem influenciar o humor, mas o sofrimento intenso ou persistente não deve ser naturalizado. “Viver uma gestação com as emoções de maneira saudável não significa estar feliz o tempo inteiro”, afirma.
Cuidar da saúde mental também é cuidar do bebê
O acompanhamento da saúde mental durante a gestação não diz respeito apenas ao bem-estar da mulher. ”Os cuidados preventivos também afetam o desenvolvimento do bebê, pois as gestações de mulheres deprimidas pode influenciar no desenvolvimento cognitivo, de linguagem e motor”, alerta.
Segundo o psiquiatra José Péricles, estratégias preventivas que incluem psicoterapia podem contribuir para reduzir a incidência de depressão pós-parto e favorecer uma experiência mais saudável no período após o nascimento.
O cuidado também pode repercutir na relação entre mãe e bebê. Condições de saúde mental perinatal não tratadas, como depressão e ansiedade, podem impactar o desenvolvimento infantil e a qualidade do vínculo entre mãe e filho.
Por isso, reconhecer a própria vulnerabilidade e buscar ajuda não significa fracasso ou incapacidade para exercer a maternidade. Pelo contrário: representa uma forma de cuidado com a mulher, com o bebê e com toda a dinâmica familiar.
Para Talita, o primeiro passo é permitir que a gestante abandone a obrigação de viver a gravidez dentro de um modelo idealizado. “Uma gestação saudável emocionalmente não é aquela em que a mulher está feliz o tempo inteiro, mas aquela em que ela pode reconhecer, expressar e cuidar das diferentes emoções que fazem parte desse período”, conclui.
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